A RCC e a Gestão do Conhecimento
A RCC tem como um dos principais objectivos dar suporte à criação e disseminação de conhecimento, tal como boas práticas, projectos, etc. Desta forma, podemos compreender que a RCC pretende ter um papel essencialmente predominante na Gestão do Conhecimento (GC) no seio da Administração Pública (AP).
Os 4 Processos da Gestão do Conhecimento
Um dos conteúdos da actividade da GC são os processos que a suportam. De acordo com (Laudon, et al., 2006), estes processos são quatro: Armazenamento, Aquisição e Disseminação e Aplicação. Analisando de forma crítica a forma como estes processos são executados pela RCC, percebe-se que esta tem o potencial para os suportar em larga escala, tanto com a sua componente privada como pública. No entanto, dada à ainda pouca utilização de várias ferramentas que a RCC disponibiliza, percebe-se que este suporte ainda não é dado de forma consistente. Desta forma, a partir do momento que esta utilização for mais real, certamente a RCC funcionará como catalisador da execução adequada destes processos.
Os Knowledge Enablers
Um suporte muito importante à GC são os Knowledge Enablers, introduzidos por (Krogh, et al., 2000), os quais são um conjunto de actividades que suportam e afectam positivamente a criação do conhecimento. As actividades mais relevantes são: incutir uma visão do conhecimento, gerir conversas, mobilizar activistas do conhecimento, criar o contexto adequado e globalizar o conhecimento local.
De uma forma genérica foi possível perceber que de facto, na sua génese, a RCC pretende dar, através dos seus objectivos, um foco grande a estas actividades da gestão do conhecimento.
A RCC como um “Ba”
Um outro conceito muito revelador do contexto da GC para uma organização/projecto é o conceito de “Ba”, introduzido por (Nonaka, et al., 1998). Este é referido como um espaço partilhado para relações emergentes. O qual pode ser de quatro tipos, o que dá origem aos quatro tipos de “Ba”: Ba Origem, Ba de Interacção, Cyber Ba e Ba de Exercício. No contexto da RCC, é notória a ligação ao conceito de “Ba”, mais concretamente de Cyber Ba. De acordo com (Nonaka, et al., 1998) este é descrito como um espaço de interacção num mundo virtual ao invés do espaço e tempo reais, representando a fase de combinação.
Tendo em conta tanto a dimensão pública como privada da RCC, verifica-se que esta pretende justamente ser um “Ba”, que permita claramente a partilha de conhecimento, dando asas à criação de relações emergentes. Assim, e dado que a RCC é um recurso disponibilizado online, através da Internet, esta pode ser vista como um Cyber Ba, motivo pelo qual achamos pertinente referir que a RCC, uma vez mais, apresenta características que permitem determinar a sua validade enquanto projecto para a GC no seio da AP.
Comunidades de Prática na RCC
Por último, no contexto da GC, é interessante avaliar a relação da RCC com o conceito de Comunidade de Prática (CoP) que é definido por (Wenger, et al., 2000) como um grupo informal de pessoas unidas por competências partilhadas e paixão por uma empresa. Mais é dito que de acordo com (Wenger, 1988) existem três dimensões que definem as CoP: sobre o que trata; como funciona; e as capacidades que produziu.
A RCC tem por objectivo, de facto, a existência de CoP na sua verdadeira definição, pois pretende com as Redes Colaborativas não só dar suporte aos grupos de trabalho, como também proporcionar a existência de grupos não vinculativos de partilha, com objectivo comum. No entanto, actualmente, os grupos que utilizam internamente a RCC não podem ser vistos como CoP, mas sim como grupos de trabalho/projecto, que estão enquadrados num projecto específico, com determinado objectivo, em que a RCC entra apenas como suporte às suas actividades. Assim, seria interessante a RCC funcionar como motivadora para a criação de CoP no seio da AP, mas não subjacentes a nenhum projecto.
A RCC e a Aprendizagem Organizacional
Como efeito da utilização da RCC, é possível também analisar este projecto à luz dos conceitos da temática da Aprendizagem Organizacional, tendo como particular foco os grupos de trabalho utilizadores da RCC.
As Comunidades de Aprendizagem, introduzidas por (Kilpatrick, et al., 2003) são descritas como grupos de pessoas que: partilham propósitos ou interesses comuns; colaboram recorrendo aos pontos fortes de cada indivíduo pertencente à comunidade, respeitando a variedade de perspectivas; promovem activamente oportunidades de aprendizagem. Um pouco no seguimento da temática das CoP anteriormente analisada, a questão do suporte da RCC para comunidades de aprendizagem é também possível, mas não é actualmente feito. Os grupos de trabalho existentes possuem algumas características que se aproximam daquelas que definem as comunidades de aprendizagem. Verifica-se, pelo menos, a existência de propósitos/interesses comuns no seio destes grupos, sendo que de certa forma se regista a colaboração com recurso aos pontos fortes de cada indivíduo.
Prova desta descrição são alguns exemplos práticos extraídos das entrevistas realizadas com os coordenadores das sub-redes Simplex e REAI. Verificou-se que, no caso da sub-rede REAI, e após a utilização da RCC na fase inicial do projecto, que as pessoas envolvidas sentiram a falta da utilização da RCC quando esta deixou de ser usada em fases posteriores. Tal facto se deveu a que foi possível por parte dos elementos utilizadores a percepção das vantagens associadas ao uso deste tipo de plataformas, o que claramente lhes incutiu um processo de aprendizagem quanto à sua forma de trabalhar. Assim, quando esse processo foi de certa forma interrompido, houve da parte dos envolvidos uma reacção de surpresa e desagrado. Este é um exemplo que permite perceber que a inserção da RCC no seio da metodologia de trabalho na AP pode de facto tornar estes grupos de trabalho mais aprendentes.
A RCC e a Mudança Organizacional
A Mudança Organizacional (MO), pode ser vista quer em termos globais quer em termos locais, i.e., pode ser vista, respectivamente, na RCC como um todo (com repercussões ao nível da AP), bem como ao nível dos grupos de trabalho que utilizam a RCC (também com repercussões globais ao nível da AP).
De acordo com (Lucas, et al., 2010), podem ser diferenciados, superficialmente, dois tipos de mudança: Mudança Planeada e Mudança Emergente. Ambas apresentam características diferentes, pelo que ambas devem ser consideradas não só de forma global como, em particular, no contexto deste trabalho.
A RCC enquanto projecto para a AP pode ser vista como fazendo parte de um processo de mudança planeada a decorrer na AP. A RCC pretende, de uma forma muito genérica, promover a criação e disseminação de conhecimento, dando suporte colaborativo ao trabalho desenvolvido pelas equipas de trabalho no seio da AP. Foi desenvolvido de forma faseada, desde a sua génese, implementação, formação aos utilizadores, etc. Assim, este deve ser visto como um processo planeado, o qual inclui as fases da mudança planeada, descritas em (Lucas, et al., 2010): preparação, implementação e reforço da mudança. Sendo notório que as fases de preparação e implementação já terminaram, não é menos notória a necessidade de investimento na terceira e última fase desta mudança, i.e., o seu reforço. É necessário que o projecto da RCC seja consolidado, que a sua utilização se torne efectiva, e que seja perceptível no contexto da AP a vantagem do trabalho colaborativo para o seu melhor funcionamento.
No que diz respeito à mudança emergente, esta está associada ao surgimento de novos padrões organizativos como consequência da adaptação às contingências locais e na ausência de um programa pré-estabelecido. Enquadrando tal definição na RCC percebe-se que este processo emergente não tem ocorrido ao nível das equipas de trabalho da RCC, dado o carácter de planeamento que a RCC tem adoptado. No entanto, este tipo de mudança não deve ser negligenciado, e caso a mudança planeada que está a ocorrer com a introdução da RCC na AP não seja correctamente consolidada, é possível que fenómenos emergentes surjam, principalmente ao nível dos grupos de trabalho. Com o tempo estes vão ter cada vez mais a percepção das vantagens associadas à utilização de plataformas de trabalho colaborativo, pelo que muito possivelmente este tipo de mudança pode vir a ocorrer.
Bernardo Gomes, Licenciado em Engenharia Informática e de Computadores pelo Instituto Superior Técnico. Actualmente é aluno finalista do Mestrado em Engenharia Informática e de Computadores (área de Sistemas de Informação Empresariais); Pedro Martins, Licenciado em Engenharia Informática e de Computadores pelo Instituto Superior Técnico. Actualmente é aluno finalista do Mestrado em Engenharia Informática e de Computadores (área de Sistemas de Informação Empresariais)
segunda-feira, 14 de Fevereiro de 2011