Estes seres vivos sociais – as CoP – têm vindo, eles próprios, a disseminar-se por todos os sectores da sociedade e, apesar dos fracassos, mitos e potencialidades, têm vindo a afirmar-se como soluções de enorme valor, tanto para a disseminação de práticas e conhecimentos inovadores intra e inter organizações, como para a construção de redes promotoras de inovações sociais, permitindo também a criação de espaços de desenvolvimento pessoal e de construção da autonomia pela aprendizagem.
As CoP constituem-se como espaços naturais que colocam a cidadania e a aprendizagem no centro do desenvolvimento sustentável da pessoa.
A construção permanente de uma
learning citizenship através das CoP não será uma das formas mais eficazes de fazer acontecer o futuro e, por isso, uma das melhores respostas transformacionais aos tempos actuais, fortemente caracterizados pela busca de novos sentidos, novos referentes e futuros possíveis?
Palavras-chave: Comunidade de práticas (CoP), inovação social, sustentabilidade e maturidade, learning citizenship, social artist;
Contextualização
Existe uma dimensão de utilidade social nas CoP. É visível no esforço permanente para esculpir práticas promissoras, na construção de soluções que funcionem, na busca das melhores respostas e na disseminação das inovações, sem esquecer a importância da consolidação de mudanças organizacionais, através da sustentabilidade e maturidade das Equipas, das Parcerias, das Redes e também dos cidadãos que as protagonizam.
As Comunidades de Práticas (CoP) estão presentes e marcam as dinâmicas de inúmeras organizações e sectores de actividade. A sua diversidade tanto ao nível do foco, da cultura dominante, como das práticas internas dificulta a construção de taxonomias ou classificações.
Muitas CoP são de natureza produtiva e visam a construção e a partilha de soluções inovadoras tanto para o
lay out produtivo, como para os negócios das Empresas.

Outras CoP, as mais analisadas nesta reflexão, focadas na inovação social e na disseminação horizontal de práticas promissoras, assumem-se como redes de natureza local ou sectorial e visam a construção de respostas e soluções integradas para os problemas que obstaculizam o desenvolvimento sustentado dos territórios e a inclusão das populações, através da mobilização inteligente e convergente tanto das práticas de outros territórios e culturas, como de conhecimentos específicos dos contextos onde intervêm.
Existem também inúmeras CoP que se assumem como espaços de disseminação vertical de conhecimento e práticas e visam influenciar e apoiar as tomadas de decisão e a definição de políticas que valorizem as populações e os territórios que servem.
São ainda frequentes as CoP multiculturais, que integram pessoas de culturas, países e estatutos sociais muitos diferenciados, marcadamente convergentes na busca de soluções comuns (p. ex., CoP na área da saúde que partilham inovações e soluções promissoras de cura e/ou promotoras de qualidade de vida, integrando, com idênticos estatutos, doentes, voluntários, médicos, enfermeiros, investigadores, políticos, etc.).
Esta polifonia e diversidade de domínios e centros de interesse, de modos de actuação, ora mais focados na disseminação horizontal, ora na disseminação vertical caracterizam os comportamentos e as agendas das CoP, que também se assumem como redes sociais e parcerias, mas que visam, no essencial, conectar pessoas, mobilizar a sua energia empreendedora e comprometê-las com projectos de mudança e com a partilha de práticas que, simultaneamente, solucionem ou minorem problemas e também promovam o seu desenvolvimento enquanto cidadãos (
learning citizens - Para E. Wenger uma CoP é, antes de tudo, um espaço de construção permanente de uma
learning citizenship; provavelmente este será um dos traços mais importantes de uma CoP e o que melhor se aproxima da sua essência e finalidade!).
Olhando para o Interior das CoP
No entanto, alguns traços comuns, presentes com intensidades variáveis, podem ser observados na grande maioria das CoP, independentemente do seu foco e forma de organização. Estes traços, combinados de modo diverso, podem ajudar a compreender a maturidade e a sustentabilidade de cada CoP, assim como a sua identidade e missão:
- Cultura e valores comuns – o ADN das CoP pode ser encontrado nas condutas dos seus membros que praticam permanentemente um conjunto de valores que cimentam e definem a identidade da própria CoP, para além de alimentarem a sua energia empreendedora: a pertença, a tolerância, a confiança e a responsabilização são os valores mais visíveis;
- A centralidade da aprendizagem e da partilha de práticas e conhecimentos inovadores, na certeza de que qualquer solução só poderá funcionar se for implementada por cidadãos responsáveis e autónomos; por outro lado, a partilha e a disseminação das práticas e conhecimentos detidos pelos cidadãos, não só valorizam a sua responsabilidade e utilidade, como consolidam e amadurecem os seus saberes e práticas, pois os processos de transferência exigem acções de interacção e feedback, que enriquecem não só quem incorpora, mas também quem dissemina;
- A intensidade colaborativa e a tolerância à participação periférica constituem atributos das CoP e dificilmente visíveis em outras formas de organização social; são também sinais reveladores da sua maturidade. De facto, as CoP caracterizam-se por níveis de participação muito diversos, atendendo às condicionantes de muitos practitioners;
- Os learning citizens e os social artists são (de acordo com a visão de E. Wenger) os membros das CoP que, antes de tudo, são cidadãos e é nessa condição que dão sentido a toda a agenda e actividades da própria Comunidade. O foco nas práticas úteis aos territórios e aos cidadãos que estão fora da CoP marcam uma cultura de estar ao serviço de! Por outro lado, as práticas são de natureza transformacional, isto é, analisar práticas, amadurecê-las e disseminá-las constitui um processo transformacional, pois será impossível incorporar ou disseminar uma prática sem que ela faça parte da “respiração” do incorporador ou mesmo do disseminador. Os líderes das CoP, particularmente, os das Comunidades focadas na inovação social têm que ser verdadeiros “social artists”, atendendo à complexidade e à diversidade de situações que têm que gerir; lidar com contextos, territórios, populações e problemas muito complexos, exigem elevada sensibilidade, condutas geradoras de confianças e compromissos, uma cultura de proximidade muito peculiar e todos estes desafios não são passíveis de abordagens através dos modelos de liderança convencionais;
- Estruturas explícitas minimalistas e complexas estruturas tácitas – As CoP não detêm habitualmente estruturas organizacionais convencionais; pode até constituir uma armadilha a excessiva formalização e introdução de mecanismos de comando-controlo. Privilegiam-se de facto os dispositivos que favoreçam a conectividade, a construção de climas de pertença, de coesão e também a consolidação de redes de confiança; por outro lado, favorece-se a “libertação” permanente das energias empreendedoras, assim como as acções que estimulem a experimentação de outras práticas.
As CoP na INovação Social e as Responsabilidades das Entidades Públicas
Retomo alguns desafios e mesmo provocações lançados por grande parte dos Equal practitioners e tão claramente sistematizadas recentemente por E. Wenger e que podem constituir oportunidades acrescidas, através das iniciativas dinamizadas e pilotadas por entidades com perfil de disseminadores verticais como poderá ser o caso das Agências Governamentais:
- A governação e a valorização de uma cultura de sustentabilidade e de responsabilidade social não poderão ser concretizadas através das CoP? Não poderão ser as CoP os parceiros essenciais na construção e indução de uma cultura de cidadania da aprendizagem?
- Não constituirá desafio actual para as entidades responsáveis pelo mainstreaming vertical – as entidades públicas - a dinamização na AP desta cultura das CoP, pois serão elas os verdadeiros motores para a construção de uma learning citizenship, proporcionadora de ganhos em termos de “qualificações” dos trabalhadores da AP?
- Que fazer com o “legado Equal”? Não cabe às entidades oficiais a responsabilidade em consolidar e disseminar a energia empreendedora disponível nas dezenas de Redes, Parcerias Equal, que cultivam a dinâmica das CoP, ensaiam e testam novos modelos, criam “social artists” e esculpem “learning citizens”? Não existe um grande legado de práticas, recursos, soluções que devem ser urgentemente apropriados por entidades e populações que procuram soluções mais sustentáveis?
quarta-feira, 23 de Setembro de 2009